terça-feira, 18 de setembro de 2012

Ciro Flamarion Cardoso                                                    

Professor Dr. Titular de História Antiga da Universidade Federal Fluminense (UFF).                                                         
            O Egito e o antigo Oriente Próximo na segunda metade do segundo milênio a.C.

1. A etapa tardia da Idade do Bronze em seu apogeu: aproximadamente
1500-1200 a.C.
1.1. As relações internacionais no Oriente Próximo: generalidades
           Tomarei com base para a análise um corpus de fontes do século XIV a.C.: os documentos de Amarna. Deixando de lado uns poucos textos de outros tipos, trata-se de 350 cartas e inventários, na forma de tabuinhas de argila inscritas em cuneiforme, tendo sido os documentos na sua esmagadora maioria redigidos na língua das relações internacionais da época, o acadiano (em certos casos, com forte influência do hurrita e do semita ocidental cananeu da Síria-Palestina). Supõe-se que o arquivo onde foram achados os tabletes em questão, parte do complexo burocrático da cidade capital de Akhetaton (a qual só foi ocupada durante cerca de duas décadas), fosse um depósito basicamente de cópias da correspondência internacional recebida, já que as cópias da correspondência enviada pelo governo egípcio são muito poucas, o que parece indicar que havia um depósito diferente para as minutas ou resumos em egípcio do material redigido nesta língua, depois traduzido para o acadiano e então enviado. No tocante à cronologia da XVIIIa  dinastia egípcia, tais documentos abarcam uma parte do reinado de Amenhotep III (1391-1353 a.C.), a totalidade do reinado de Amenhotep IV/Akhenaton (1353-1335 a.C., caso a hipotética co-regência com seu pai não haja ocorrido), o período de Smenkhkara (1335-1333 a.C.) e talvez o primeiro ano do reinado de Tutankhamon (1333-1323 a.C.). No que diz respeito a outros grandes reinos do Oriente Próximo, os documentos de Amarna cobrem os reinados seguintes: o de Ashshuruballit I (1353-1318 a.C.) da Assíria; no caso da Babilônia, os de Kadashmanenlil I (1364?-1350 a.C.) e Burraburiash II (1349-1323 a.C.); entre os hititas, o de Shuppiluliumash (1380-1340 a.C., muito aproximadamente, havendo quanto à data final deste reinado considerável divergência, certos autores levando-o até 1318 a.C.).
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             O período tardio da Idade do Bronze foi marcado, em seu apogeu, por um relativo equilíbrio internacional: havia certo número de reinos importantes, nenhum deles capaz de dominar os outros; destes, o do Mitanni foi o único, durante tal período, a perder importância em caráter absoluto. Seja como for, no século XIV a.C., época do arquivo de Amarna, aparecem tratados como grandes reis os do Egito, da Babilônia, da Assíria, do Mitanni, do Khatti (reino hitita), de Arzawa (reino da Ásia Menor, a oeste do dos hititas) e de Chipre. No tocante à correspondência amarniana dos grandes reis entre si, confrontada às inscrições reais da mesma época (estas destinadas ao público interno de cada rei), Carlo Zaccagnini propõe as observações seguintes: (1)


Nível factual

Interpretação ideológica
Ênfase na redistribuição
Ênfase na reciprocidade
Transferência de objetos
Contribuições forçosas
Dom/contra-dom
Inventários
Inscrições reais
Cartas

              Mesmo com modificações, a forma do quadro acima não é ideal, mas o que ele quer mostrar é o seguinte: na correspondência amarniana, os inventários se refeririam às transferências de objetos entre as cortes ao se encarar empiricamente tais trocas, na forma de listas do que era enviado. Quanto às maneiras em que a ideologia daquela época "traduzia" ou dava forma textual àquelas transferências, no entanto, haveria uma divergência entre as cartas (incluídas, como os inventários, no arquivo de Amarna) dos grandes reis entre si, nas quais as trocas de objetos, às vezes em enormes quantidades, apareciam caracterizadas como dons e contra-dons ("presentes"), e as inscrições reais destinadas à população de seu próprio reino, em que as mesmíssimas transações apareciam sob a forma de "tributos" pagos pelos monarcas estrangeiros. Mesmo os inventários, no entanto, implicavam conotações ideológicas.
               A ideologia que está por trás da correspondência entre os grandes reis baseia-se em descrever cada reino como se fosse uma "casa" (no sentido do termo inglês household), com o respectivo rei como chefe de uma família extensa que compreende todo o reino. Estes grandes reis tratam-se de "irmãos" e, nessa qualidade, trocam presentes entre si. As quantidades às vezes surpreendentemente elevadas de bens que circulavam desta maneira mostram que o fato de chamá-los de "presentes" era simplesmente a moldura ideológica convencionada para caracterizar uma boa parte, se não a maioria, das trocas que abasteciam os diferentes reinos em matérias-primas diversas e artigos de luxo. A ética dessa correspondência levava a que se salientasse o caráter 
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  bilateral exclusivo da relação entre reis (estes entravam em contacto dois a dois, com exclusão de um terceiro qualquer; embora na prática, em paralelo, cada um dos correspondentes também se relacionava bilateralmente com o terceiro em questão) e o valor de uso, não o de troca, dos bens que circulavam de um sistema palacial ao outro. Ao mesmo tempo, era um artifício retórico corrente a depreciação dos bens recebidos, seja alegando que não correspondiam às promessas feitas antes de seu envio, seja afirmando que tais bens eram excessivamente abundantes no país de origem. Vamos exemplificar estes diferentes elementos com a correspondência de Amarna; é bom salientar, porém, que a documentação relativa ao período posterior que corresponde ao apogeu raméssida (o século XIII a.C.) apresenta exatamente as mesmas características estruturais no relativo  à  ideologia  da   correspondência  e  das  trocas  entre  grandes reis (Zaccagnini, 1987: 61).
             Eis aqui o preâmbulo de uma carta de Amenhotep III a Kadashmanenlil I da Babilônia (EA 5):
"Assim (fala) Nibmuareya [= Nebmaatra, nome de trono do faraó – C.F.C.], Grande Rei, rei do Egito. Dize a Kadashmanenlil, o rei de Karaduniash [= Babilônia], meu irmão: Tudo vai bem para mim. Que tudo possa ir bem para ti. Que tudo possa ir bem para tua casa, tuas esposas, teus filhos, teus nobres, tuas tropas, teus cavalos, teus carros de guerra; e em teus territórios. Quanto a mim, tudo vai bem. Tudo vai muito, muito bem quanto a minha casa, minhas esposas, meus filhos, meus nobres, minhas tropas numerosas, meus cavalos, meus carros de guerra; e em todos os meus territórios."
(Moran, 1992: 10) (2)
              Ou seja: um "irmão" dá notícias de sua própria "família" (seu reino) a outro "irmão", seu igual, e pergunta-lhe acerca da sua "família" (do seu reino). Há alguma variação de forma no arquivo quanto a isto, mas não no tocante a características essenciais.
              O rei de Babilônia, Burraburiash II, tendo sido informado de que o rei assírio enviara pela primeira vez embaixadores e presentes ao do Egito, escreveu a este último (EA 9, p. 18):
"Agora, no tocante a meus vassalos assírios, não fui eu quem tos enviei. Por que vieram a teu país por decisão própria? Se me amas, eles nada conseguirão. Envia-os a mim com as mãos vazias. Eu te envio, como presente de saudação, 3 minas de genuíno lápis-lazúli e 5 parelhas de cavalos para 5 carros de guerra de madeira."
             Esta passagem, precedida na carta pela recordação de no passado ter recusado entrar em relações com os canaanitas contra o Egito, ilustra o caráter somente bilateral que em teoria deveriam ter as relações entre grandes reis (daí "se me amas, nada conseguirão"). Por outro lado, era malvisto que um grande rei entrasse em relação direta com o vassalo de um outro: assim, o rei da Babilônia 
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afeta ser o suserano do da Assíria – o que não era verdade, tratando-se unicamente de um artifício discursivo. "Presente de saudação" era a maneira habitual de chamar os dons reais.
              Em outra missiva, afirmava Burraburiash II (EA 7, p. 13):
"Outrossim, no país de meu irmão, dizem-me, tudo está disponível e meu irmão de nada absolutamente tem necessidade. Outrossim, no meu país tudo está disponível e, de minha parte, nada absolutamente necessito. (No entanto), nós herdamos boas relações que existem há muito de reis (do passado), de modo que deveríamos enviar saudações
[entenda-se: presentes de saudação – C.F.C.] um ao outro. Estas boas relações é que serão duradouras entre nós."
               Em outras palavras, as trocas de presentes não têm finalidades mercantis, é o que significa o texto: dão-se somente para garantir boas relações entre reis que são tradicionalmente "irmãos". No entanto, em muitos casos tais trocas envolvem grandes quantidades de bens e, como depois veremos, complementaridade de abastecimento entre áreas produtivas distintas.
               A ausência alegada de motivação mercantil nas trocas leva a que, ao solicitar o envio de determinados bens, se dê uma razão ad hoc para tanto, ligada ao seu uso, com freqüência sem entrar em maiores detalhes sobre o que se afirma. Aqui está um exemplo tirado de carta de Ashshuruballit I da Assíria ao faraó (EA 16, p. 39): "Eu estou ocupado na construção de um novo palácio. Envia-me todo o ouro necessário para seu adorno". Numa carta, provavelmente de Kadashmanenlil I de Babilônia a Amenhotep III (EA 4, p. 9), o rei asiático declarou que se o faraó demorasse a enviar-lhe o ouro de que precisava para "terminar a obra em que estou ocupado", de nada serviria enviá-lo depois. Neste caso, a relação necessária de reciprocidade (dom/contra-dom) é também salientada: o rei mesopotâmio prometera uma filha sua em matrimônio ao faraó, mas escreveu que, se o ouro chegasse estando a obra já terminada, "eu to devolveria e não te daria minha filha em casamento".
              A depreciação do recebido é constante nos documentos de Amarna. Uma de suas formas habituais é ilustrada quando lemos, numa carta já citada (EA 16, p. 39), o rei assírio dizer ao do Egito que o ouro que este lhe enviou "nem mesmo basta para cobrir as despesas de meus mensageiros na viagem de ida e na de volta". A outra aparece na afirmação, sempre na mesma carta, de que "O ouro em teu país é (como) o pó: basta recolhê-lo". Bastante freqüente, também, é a comparação da generosidade dos antecessores (ou do mesmo soberano no passado) com a parcimônia do rei atual de um dado país. Por exemplo, escreveu Tushratta do Mitanni a Amenhotep III (EA 19, p. 44): "Tu enviaste muito ouro ao meu pai. Enviaste-lhe grandes vasos e jarrões de ouro. Enviaste-lhe tijolos de ouro como se fossem o mesmo que (tijolos de) cobre".
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             Os presentes entre reis podiam incluir, entre outras coisas, mulheres das famílias reais dadas em casamento a outros reis (com a exceção do Egito, que recebia princesas estrangeiras mas não enviava as suas: cf. sobretudo EA 4, pp. 8-9 (3)) – e cujo envio dava origem a trocas de presentes preciosos muito copiosas (como preço da noiva numa direção, dote na outra) –, minérios (ouro, prata, cobre), madeira, tecidos finos, artigos e objetos de arte confeccionados com materiais preciosos (ouro, prata, marfim, etc.), carros e cavalos de guerra (sendo, estes, elementos essenciais da tecnologia militar do período), ungüentos e perfumes. No caso do Egito, que detinha o monopólio das extrações de ouro mais produtivas do Oriente Próximo (na Núbia e no deserto oriental) e de suas rotas, era sobretudo tal metal precioso, em grande quantidade, o que pediam os reis de outros países. Como já disse, os inventários de presentes enviados podem chegar a ser espantosos no tocante ao volume enorme de riquezas que representam (ver, por exemplo, EA 13, pp. 24-26, EA 14, pp. 27-34, EA 22, pp. 51-57).
             De certo modo, entravam na mesma lógica os pedidos de envio de mão-de-obra (serviçais) e especialistas: médicos, mágicos, escultores, etc. Neste caso, tratava-se de um empréstimo: passada a necessidade alegada (sempre de acordo com a lógica do "valor de uso", portanto), o membro do pessoal de outro palácio emprestado seria devolvido. Em forma análoga, estátuas divinas a que se atribuíam poderes curativos podiam circular entre as cortes.
             Em importante artigo de síntese (embora negue que disto se trate), Mario Liverani tratou de identificar os traços principais do sistema de trocas da fase tardia do Bronze no Oriente Próximo, com ênfase no caso da Síria. Tais trocas se efetuavam no nível político mais alto (o do palácio). Os mercadores, mensageiros, prospectores de minas, etc., eram despachados pelos palácios, mesmo quando também efetuassem atividades em proveito próprio. Cada grande rei podia contactar seus vassalos, reis menores em sua própria área de influência, ou outros grandes reis: mas um grande rei não deveria entrar em contacto direto com o vassalo de um outro. Em conseqüência, as relações de troca de longa distância se fragmentavam em etapas correspondentes aos diferentes sistemas palaciais, as quais não podiam ser evitadas ou contornadas; e as atividades propriamente mercantis (e vistas como tais) ficavam limitadas, bem como os sistemas de rotas terrestres e marítimas, embora tal ocorresse também por deficiências técnicas  (Liverani, 1987).
             As rotas marítimas na época tardia do Bronze no Oriente Próximo achavam-se fragmentadas, bem como a navegação em si. Havia uma frota egípcia, frotas das cidades costeiras da Síria-Palestina, outras de Chipre (Alashia), de Ura (na Cilícia) e de diversas cidades micênicas. A presença dos grandes sistemas palaciais limitava – em conjunto com características da tecnologia naval da época – a possibilidade de uma navegação realmente de longo curso.
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              No tocante às reclamações relativas às trocas, um grande rei, ao receber um pedido de algum súdito nesse sentido, devia entrar em contacto com o grande rei em cuja área de influência ocorrera o incidente: este último, por sua vez, transmitiria a queixa ao governante vassalo em cujo território acontecera a coisa; e o vassalo por vezes responsabilizava a aldeia mais próxima à ocorrência, que então arcaria com o ônus das compensações. Os grandes reis também intercediam junto a outros grandes reis por seus mensageiros: um dos modos de mostrar desfavor consistia em reter os mensageiros de outro monarca por tempo mais longo do que o necessário para completar sua missão.
              Eis aqui, numa carta de Burraburiash II da Babilônia a Akhenaton (EA 8, pp. 16-17), a ilustração de ambas as situações:
"...meus mercadores, que estavam a caminho com Akhutabu
[mensageiro, ou seja, embaixador do rei mesopotâmio – C.F.C.], foram detidos em Canaã devido a assuntos de negócios. Depois que Akhutabu foi ter com meu irmão [ou seja, com o faraó – C.F.C.],em Khinnatuna de Canaã, Shumadda, o filho de Balumme, e Shutatna, o filho de Sharatum de Akka, tendo enviado seus sequazes, mataram meus mercadores e roubaram o seu dinheiro. (...) Pergunta-lhe [há uma lacuna no documento, mas o ‘lhe’ parece referir-se ao rei da cidade-Estado de Akka – C.F.C.] para que te informe. Canaã é país teu e seus reis são teus servidores. Eu fui despojado em teu país. Faze com que sejam responsabilizados e compensem pelo dinheiro que roubaram. Mata os homens que mataram meus servidores: eles matarão de novo, seja uma caravana minha ou teus próprios mensageiros, por conseguinte o fluxo de mensageiros entre nós será cortado. E mesmo que tentem negar-te isto, Shumadda, tendo bloqueado a passagem de um de meus homens, reteve-o em sua companhia e outro homem, tendo sido forçado a servir Shutatna de Akka, continua a servi-lo. Estes homens deviam ser-te enviados para que possas investigar, inquirir se eles estão mortos [isto é, se os dependentes do rei da Babilônia detidos em Akka estão vivos ou mortos – C.F.C.] e assim ficar informado. Como presente de saudação, mando-te uma mina de lápis-lazúli. Despacha meu mensageiro imediatamente, para que eu conheça a decisão de meu irmão. Não detenhas meu mensageiro. Deixa-o vir ter comigo imediatamente."
              As cartas de Amarna mostram que, apesar do que se disse sobre as estruturas das trocas na época tardia do Bronze, a idéia do comércio e a do lucro abriam caminho em certas áreas. É o caso, por exemplo, de Ugarit. Vamos ilustrar tal fato com elementos da correspondência do rei de Chipre (Alashia) com o faraó egípcio. Tal correspondência se adequa em geral à ideologia do dom/contra-dom, mas apresenta também elementos discrepantes. Por exemplo, eis aqui duas passagens curiosas de uma mesma carta (EA 35, p. 107):
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"Outrossim, meu irmão, homens de meu país falam-me repetidamente de minha madeira que o rei do Egito recebe de mim. Meu irmão, entrega-me o pagamento devido. (...)
"Tu não foste colocado (no mesmo nível) do rei de Khatti ou do rei de Shankhar. Qualquer presente de saudação que (meu irmão) me enviar, eu de minha parte enviar-te-ei em troca o dobro."
             Em ambas as passagens, a linguagem é muito mais mercantil do que a habitual nos documentos de Amarna, mesmo se ao mesmo tempo se usa a expressão usual "presente de saudação".
              Em outra carta do rei de Chipre lê-se (EA 39, p. 112):
"Estes homens são meus mercadores. Meu irmão, deixa-os ir em segurança e prontamente. Ninguém deve, exigindo algo em teu nome, aproximar-se de meus mercadores ou de meu barco."
             O que temos aqui é simplesmente um pedido ao mesmo tempo de salvo-conduto e de isenção de impostos alfandegários (ou de qualquer outro tipo) para o comércio de Chipre com o Egito, numa lógica que contraria a estrutura mesma do comércio marítimo fragmentado típico do auge dos sistemas palaciais próximo-orientais.
             Terminando este tópico, mencionemos a pertinente observação de Liverani sobre a tendência a uma complementaridade entre diferentes áreas do Oriente Próximo nas trocas, devido à concentração regional exclusiva ou muito majoritária de certas produções mais importantes. Assim, a Síria-Palestina se especializava em azeite de oliva, madeira e tecidos tingidos de púrpura; o cobre tinha duas zonas referenciais de maior peso: a ilha de Chipre a oeste e, a leste, a região do Golfo Pérsico (Omã-Magan); o caso do estanho é menos claro, mas pareceria que o Irã em certos períodos era a zona de referência; o Egito controlava as rotas do ouro, bem com as do incenso e da mirra do país de Punt (nesta época proavelmente a Somália e talvez também o sul da Arábia) por sua navegação no mar Vermelho; por fim, o lápis-lazúli vinha do atual Afeganistão  (Liverani,1987: 68).  Um de tais circuitos comerciais, dentro do que já vimos acerca da fragmentação dos contactos a longa distância, é representado pelas rotas (fluviais e marítimas) controladas pelo Egito no tocante ao comércio de ouro e incenso.
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1.2. As relações do Egito com seu império asiático da Síria-Palestina
             Para este ponto, o arquivo de Amarna é também pertinente: contém, na verdade, mais elementos da correspondência entre os reis vassalos do império asiático do Egito e o governo egípcio do que cartas trocadas pelos grandes reis. Não estarei interessado numa história da expansão egípcia além do Sinai mas, sim, nas estruturas mais importantes nela envolvidas.
            O império asiático do Egito na época do Bronze tardio pode ser definido como um protetorado bastante frouxo, baseado numa política de mínima intervenção (com exceção, naturalmente, das próprias expedições militares de conquista ou reconquista). Os egípcios não tinham meios disponíveis suficientes para um controle estreito, uma colonização ou uma mudança em profundidade das estruturas de uma Síria-Palestina de antiga civilização, densamente povoada, dotada de sistemas palaciais próprios (cada um deles ínfimo em comparação com o egípcio, mas numerosos), contendo portos e rotas terrestres bem estabelecidos no sistema de trocas do Oriente Próximo da Idade do Bronze. É verdade que, em função da dominação dos hicsos e do movimento para expulsá-los, o Egito efetuara seu aggiornamento tecnológico em relação à Ásia Ocidental, incluindo técnicas militares que eram as mais avançadas daquela época, além de dispor pela primeira vez em sua história de um exército e frota permanentes de certo peso numérico – elementos sem os quais qualquer intervenção mais a fundo na Síria-Palestina seria simplesmente impossível. Dominique Valbelle resume assim os meios de ação que o regime da XVIIIa dinastia usou em sua política asiática:
"Para pretender reinar sobre um império, os faraós deram-se os instrumentos de sua ambição: um exército que evolui sem cessar, integrando as tropas e o material militar de seus adversários; fortificações mais leves do que as do Reino Médio e concebidas mais para gerir a ocupação de regiões fronteiriças ou estrangeiras do que para servir de escudo ao Egito; uma organização destinada ao mesmo tempo a explorar os novos recursos adquiridos e a exportar a cultura egípcia, em particular na forma de templos e de fundações religiosas."
(Valbelle, 1990:  149-150)
            O último ponto, no que diz respeito aos "templos e fundações religiosas", é o mais duvidoso: ao contrário do que aconteceu na Núbia, na Ásia Ocidental egípcia não se foi muito longe neste sentido. Algumas cidades da região foram "dadas" a Amon-Ra e outras divindades egípcias, mas isto significou somente uma entrega aos templos respectivos, no Egito, dos tributos oriundos de tais cidades (Kemp, 1978:  51-53).  
           A irrupção das tropas egípcias na Síria-Palestina significou a interrupção de processos internos de formação de núcleos hegemônicos. Quais fossem eles fica claro na própria documentação egípcia a respeito das campanhas de conquista, em especial nas inscrições de Thotmés III e alguns de seus soldados: (Lichtheim, 1975, vol. II: 29-35; Forbes e Garner, 1982: 25-34; Cumming, 1982, I: 1-7) Hazor, no alto vale do rio Jordão, Kadesh, no alto Orontes, Tunip, na Síria central, Megiddo, no noroeste da Palestina, o reino de Nukhashshe ao sul de Alepo, o porto sírio de Ugarit. No norte da Síria, por outro lado, a esfera de influência dos egípcios entrou em choque com a do Mitanni primeiro, a dos hititas mais tarde.
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            Poder-se-ia dizer, na realidade, que foi exatamente para interromper o processo de formação de hegemonias perigosas ao norte de sua fronteira, uma vez expulsos os hicsos, que os reis da XVIIIa dinastia empreenderam as campanhas asiáticas. No entanto, não impediram, posteriormente, as lutas entre cidades-Estados da Síria-Palestina compreendidas em sua área de domínio militar-tributário, no decurso das quais podiam ser mortos príncipes rivais e eram feitos prisioneiros para cuja libertação os vitoriosos exigiam resgate (havendo casos em que as cidades vencidas pediam que o rei do Egito enviasse os recursos para pagamento do resgate em questão), nem barraram a formação de novas hegemonias, em especial a do Amurru; e, para interromper os ataques de Labayu e seus filhos a caravanas na Palestina central, recorreram aos próprios príncipes palestinos em lugar de efetuarem uma intervenção direta. É verdade que os próprios príncipes descritos pelos seus colegas de outras cidades como "rebeldes" e "traidores", como Labayu e seus filhos ou Aziru do Amurru, tinham o cuidado de reconhecer pelo menos formalmente a suserania egípcia.
            O que era, então, o império asiático do Egito? Tratava-se, como já disse, de um frouxo protetorado de base militar e fiscal. Mantinham-se no poder os príncipes das cidades-Estados asiáticas, embora seus filhos devessem ser enviados ao Egito para obterem uma formação egípcia e serem treinados na lealdade à potência suserana. Guarnições egípcias – pequenas, aliás – eram mantidas em alguns centros da Síria-Palestina, ficando esta dividida em três províncias (que não tinham tal designação, não estando o sistema de todo formalizado) – Canaã, Upe e Amurru –, tendo como centros principais de gestão egípcia respectivamente Gaza, Kumidi e Sumur. Fora dos períodos em que expedições militares maiores fossem enviadas do Egito (ocasiões em que os príncipes locais deviam providenciar provisões e transporte marítimo para tais tropas quando solicitado), o regime egípcio fazia-se representar por comissários residentes e por mensageiros do faraó que levavam e traziam a correspondência (quase sempre militares do corpo de carros de guerra). Os príncipes locais eram considerados "prefeitos" responsáveis por garantir a suserania egípcia e o fluxo dos tributos, estes por vezes especificados pelo rei do Egito (por exemplo: madeira, cobre, prata, artigos de vidro, objetos preciosos variados, tecidos tingidos de púrpura, azeite, escravos e serviçais – mulheres em especial); mas, não, obrigados a fornecer tropas aos egípcios. Os próprios príncipes, no entanto, em suas missivas solicitavam constantemente que o soberano egípcio lhes enviasse soldados. Em caso de queixa que envolvesse compensações, da parte de um egípcio ou de um grande rei estrangeiro em favor de súditos seus, o faraó, que a recebia, transmitia-a ao príncipe asiático em cujo território se houvesse dado a ocorrência. Os príncipes contavam com o Egito para manter-se no poder e, mesmo, para garantir a obediência de um campesinato hostil aos elementos palaciais e urbanos que o exploravam sem piedade (a tributação egípcia vindo somar-se àquela em favor dos sistemas palaciais locais). (4)
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             Se as intervenções político-militares egípcias permaneceram no nível mais baixo possível, no tocante às estruturas sociais da Síria-Palestina os suseranos se abstiveram de qualquer ingerência. Já antes da existência do império asiático do Egito, tivera início um processo que continuou sob os egípcios: o de concentração da população sedentária e da urbanização na costa e em certas terras melhores, abandonando-se amplas zonas antes agrícolas ao pastoreio seminômade e mesmo ao banditismo. Tal processo de concentração implicou também empobrecimento e marginalização (até mesmo no sentido físico), devido à brutal concentração dos recursos principais da região: daí o surgimento dos apiru, outrora considerados um grupo étnico, mas que eram na verdade pessoas de origens diversas que haviam abandonado a vida sedentária para reverter a um seminomadismo "secundário", formando tropas extremamente heterogêneas que saqueavam cidades e zonas agrícolas mas também – e crescentemente – punham-se a serviço dos príncipes das cidades mais importantes como tropas auxiliares de mercenários (em função do qual podiam, às vezes, obter terras e regressar à vida sedentária). Se os apiru representavam um elemento móvel e instável, a sociedade organizada centrava-se em cada caso numa cidade fortificada com seu sistema palacial. O príncipe local tinha à sua volta uma elite guerreira de combatentes de carros, os maryannu, artesãos, comerciantes. Os camponeses, chamados às vezes de "hoste rural" (sabe nâme) por deverem fornecer milícias locais e trabalho de corvéia para os príncipes e para os suseranos egípcios, eram muito explorados e com freqüência hostis ao domínio palacial. Com o tempo, nota-se a crescente desafeição dos próprios maryannu e dos comerciantes ao regime, preparando uma crise em que o sistema, enfraquecido, sucumbiria, como veremos, sob os embates dos "povos do mar"; processo em que os maryannu (e a forma de combate aristocratizante centrada nos carros de guerra) desapareceriam, enquanto os comerciantes passariam a novas formas de ação, liberados dos controles palaciais (Cf. Redford, 1992: 192-213; Liverani, 1982 e 1983; Zaccagnini, 1981: 44-55).
             Tratarei agora de ilustrar alguns dos aspectos do império asiático do Egito através dos documentos de Amarna, com especial atenção à forma que assume o protocolo do relacionamento entre os príncipes locais por um lado e, por outro, o faraó e seus representantes.
             Ao contrário dos grandes reis, os pequenos príncipes vassalos situados na órbita da suserania egípcia tinham de dirigir-se ao faraó ou a seus representantes de modo a marcar sua situação de subordinação. Eis aqui, como exemplo típico, o início de uma carta do prolífico correspondente Rib-Hadda de Biblos (já que responde por cerca de 25% de toda a parte conservada do arquivo de Amarna) ao rei egípcio (EA 117, p. 193):
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"Rib-Hadda escreve ao seu senhor, Grande Rei, Rei da Batalha. Possa a Senhora de Biblos conceder poder ao rei, meu senhor, meu Sol. Eu caio aos pés de meu senhor, meu Sol, sete vezes e sete vezes."
             Os príncipes asiáticos, em sua correspondência com a corte ou os representantes egípcios, afirmavam dever o poder aos seus suseranos: assim, o príncipe de Nukhashshe, Addunirari, declarou que Thotmés III "derramou óleo" sobre a cabeça de seu antecessor Taku, ou seja, ungiu-o como rei (EA 51, p. 122).
             Nota-se, apesar de tudo, uma hierarquização interna nas relações do Egito com os príncipes vassalos asiáticos. Se o já mencionado Rib-Hadda, sempre invocando o caráter antigo da fidelidade de Biblos ao Egito (por exemplo: EA 74, p. 142, em que Biblos é chamada de "a leal criada do rei desde o dia de seus antepassados"), espera um tratamento especial que em geral não obtém, o faraó sem dúvida reserva relações mais próximas e cordiais ao porto de Ugarit, estrategicamente situado do ponto de vista político-militar na Síria e importante centro comercial. Assim, trocas de presentes aparecem como um aspecto proeminente das relações Egito/Ugarit. O rei de Ugarit deve, de todo modo, usar a forma de um vassalo ao dirigir-se ao faraó (EA 45, p. 117):
"Dize ao rei, o Sol, meu senhor: Mensagem de Ammistamru, teu servidor. Eu caio a teus pés sete vezes e sete vezes. Possa tudo ir bem para o rei, o Sol, meu senhor, para tua casa, tua esposa principal, tuas (outras) esposas, teus filhos, teus arqueiros; para tudo mais que pertence ao rei, o Sol, meu senhor, possa tudo ir bem, muito bem."
             Nota-se, porém, um estilo misto: a saudação é humilde, mencionando a prosternação, mas o rei de Ugarit usa, como é mais próprio só dos grandes reis, a fórmula de saudação desejando que tudo vá bem com a "família" do faraó (ou seja, o reino interpretado como uma família), mesmo se não especifica que tudo vai bem com sua própria "família". Outrossim, não se restringe a pedidos de tropas; permite-se, ocasionalmente, solicitar presentes, ou o empréstimo de pessoal do tipo reservado de ordinário aos grandes reis (EA 49, p. 120):
"Possa meu senhor dar-me dois servidores, (servidores) do palácio, de Kush. Dá-me, também, um servidor do palácio que seja médico. Não há médico aqui."
            A rainha de Ugarit recebia presentes da rainha do Egito, ou seja, da esposa principal do faraó, e enviava presentes em troca (EA 48, p. 120: as lacunas impedem saber qual foi o presente da rainha do Egito, mas a troca fica clara):
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"À ...minha senhora. Mensagem de ...-Kheba, tua criada. Eu caio aos pés de minha senhora. Que tudo possa ir bem para minha senhora.
"Tu deste a tua criada... Eu presentemente envio a minha senhora... e um jarro de substância aromática, um bálsamo."
              Naturalmente, na eventualidade de ser agraciado com um presente do faraó, um príncipe asiático não podia, como um grande rei, minimizar o recebido! Os príncipes das cidades mais importantes ocasionalmente solicitavam ouro ao seu suserano, com a mesma fórmula dos grandes reis (isto é, dando uma razão ad hoc, "de uso", para o pedido). Assim, Akizzi, príncipe da cidade síria de Qatna, pede "um saco de ouro, o quanto for necessário para (a estátua de) Shimigi, o deus de meu pai, de modo que eu possa confeccioná-la para mim" (EA 55, pp. 127-128).
              Na correspondência de Amarna tanto quanto em outras fontes, é difícil separar o tributo do comércio: a suserania do faraó faz com que tudo pareça tributo. Há, entretanto, alguns casos claros em que um desembolso egípcio em troca do que pede o faraó é mencionado (EA 369, p. 366):
"A Miliku, o governante de Gazru, da parte do rei. Ele presentemente despacha para ti este escrito, dizendo-te: Ele presentemente envia-te Hanya, o (superintendente) do estábulo dos arqueiros, levando consigo tudo para a aquisição de belas copeiras: prata, ouro, roupas de linho, maalbashi
(?), quartzo vermelho, todo tipo de pedras (preciosas), uma cadeira de marfim; todas, sem exceção, coisas de qualidade. (Valor) total: 160 deben. Total: 40 copeiras, sendo de 40 (shekels de) prata o preço de uma copeira. Envia copeiras extremamente belas nas quais não haja defeito, de modo que o rei, teu senhor, te diga: ‘Isto é excelente, bem de acordo com a ordem que ele te enviou’. "
             No relativo à madeira, quando, imediatamente após uma campanha militar vitoriosa na Ásia, Thotmés III afirmava que madeira do Líbano era cortada para ele, (5) tratava-se sem qualquer dúvida de tributo. No entanto, também não há razão para duvidar de que Tjeker-Baal, o príncipe de Biblos, tenha mostrado ao emissário egípcio Unamon assentamentos de seu arquivo relativas a seis expedições egípcias que no passado haviam ido buscar madeira para o barco de Amon; e que abundantes riquezas tenham sido pagas pela madeira em questão.(6) Como o grande barco fluvial de Amon só era renovado a longos intervalos, as seis expedições cobrem um período que, contado para trás, atingiria o apogeu do império asiático do Egito. Assim, quando, numa estela de Amenhotep III, em fase pacífica das relações com o império asiático, lemos, a respeito de uma dessas ocasiões de renovação da embarcação de Amon em seu reinado, que a madeira de pinho necessária foi "cortada por minha majestade na região da terra do deus (= o monte Líbano) e arrastada das montanhas de Retenu pelos chefes de todas as terras estrangeiras" (7), devemos duvidar de que se trate de tributo e considerar muito provável que, nessa oportunidade, um barco com "riquezas do Egito" para o príncipe de Biblos tenha sido enviado com os mensageiros reais para pagamento da madeira cortada.
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             Em conclusão ao tópico, vou citar uma das cartas de Rib-Hadda de Biblos que me parece especialmente ilustrativa da situação na Palestina sob o império egípcio na época de Amarna (século XIV a.C.). Trata-se de EA 125, pp. 204-205:
"Quanto a dizer-me o rei, meu senhor: ‘Protege-te e protege a cidade do rei onde estás’, com o que me protegerei e à cidade do rei? Previamente, havia uma guarnição do rei comigo e o rei costumava dar grão para seu alimento da terra de Yarimuta. Mas agora Aziru repetidamente me saqueou. Não tenho bois, nem carneiros, nem cabras. Aziru tomou tudo. E não há cereal para meu sustento, e o campesinato fugiu para onde há grão para seu alimento. Outrossim, por que o rei me compara aos (outros) prefeitos? Os prefeitos têm suas cidades e seu campesinato está sob seu controle. Mas Aziru tem as minhas cidades e ele quer (dar cabo da) minha vida. Por que deveria eu fazer uma aliança com ele? O que são os cães, os filhos de Abdi-Ashirta
[príncipe de Amurru, pai de Aziru – C.F.C.], para fazer o que quiserem e incendiar as cidades do rei?"
            Retórica à parte, a verdade é que o príncipe de Biblos teve de fugir da sua cidade, morrendo pouco depois como refugiado em Beirut. E Aziru terminou por alinhar-se com o rei hitita.

2. O colapso do sistema internacional da Idade do Bronze e o início da
Idade do Ferro: aproximadamente 1200-1070 a.C.
2.1. A "catástrofe de 1200 a.C." e suas conseqüências
            Existe um consenso já antigo acerca de terem ocorrido transformações muito profundas no antigo Oriente Próximo, as quais ficam evidentes por volta de 1200 a.C. Também não é difícil que os especialistas se ponham de acordo, a não ser em detalhes de cronologia e ênfase, sobre as diferenças entre a nova ordem, característica da Idade do Ferro que aos poucos emergiu depois de terminado o sistema regional anterior, e a antiga, aquela da Idade do Bronze. Não há consenso, porém, acerca da natureza exata e das causas do que alguns chamam de "a catástrofe de 1200 a.C."
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             Ao redor de 1200 a.C., algumas das organizações palaciais do Oriente Próximo desapareceram para sempre, juntamente com as cidades que as abrigavam (foi o caso do império hitita, de Ugarit, de Alalakh). Em outros casos – como o da costa do que é hoje o Líbano, entre Biblos ao norte e a região do monte Carmelo ao sul – as cidades sobreviveram. Certas regiões doravante estavam caracterizadas por povos e unidades políticas distintos dos que as fontes antes mencionavam: filisteus na costa sul da Palestina, tjeker ou teucros na costa norte da mesma região, israelitas no interior – estes últimos mencionados pela primeira vez num documento egípcio do final do século XIII a.C.; processo similar se nota também em Chipre e na Cilícia, por exemplo. O Egito, atacado várias vezes desde o século XIII a.C. pelos diferentes povos da Líbia e por aqueles que as fontes egípcias chamaram de "povos do mar", sobreviveu e continuou ostentando um sistema palacial e outro, templário, de peso: mas perdeu para sempre a Núbia e o império asiático; e terminou por bipartir-se. A Mesopotâmia, situada bem para o interior da Ásia Ocidental, foi poupada e por isso mesmo – posto que os sistemas palaciais da Síria que a bloqueavam desapareceram – voltou a estar no centro das relações internacionais regionais no primeiro milênio a.C.
            Se se formular a pergunta acerca das razões dessas destruições e mudanças no mapa político de uma zona extensa do mundo antigo (pois também desapareceram os palácios micênicos e transformou-se politicamente o mundo grego do Egeu), a resposta configurará teorias em confronto, algumas hoje em dia já defasadas pelo acúmulo de provas contrárias e/ou por um esquema cronológico inconvincente, outras plenamente vigentes ainda, sem solução clara para o debate entre elas. Sem entrar a fundo no debate, vou mencionar em linhas gerais quais são as posturas explicativas básicas e minhas preferências a respeito.
            As teorias, embora sejam bastante numerosas, podem ser reunidas em somente cinco grupos principais segundo a sua lógica, ou seja, segundo o fator a que emprestam, em cada caso, poder explicativo maior. Assim, a "catástrofe de 1200 a.C." no Oriente Próximo e adjacências (o mundo do Egeu) pode atribuir-se segundo os autores a: 1) fatores naturais: erupções vulcânicas acompanhadas de terremotos e ondas gigantescas, terremotos simplesmente, anos de seca trazendo más colheitas, fome e pestilência; 2) a introdução do ferro, transformando a fundo a tecnologia, inclusive a da guerra e, assim, desequilibrando a situação entre os que dispusessem ou não do novo metal; 3) depredações, pirataria, saques e instalações de povos
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 recém-chegados às regiões onde por fim se estabeleceram, em função principalmente de grandes ondas migratórias (os historiadores que aceitam esta posição podem dividir-se em sua opinião sobre quão numerosos fossem os migrantes); 4) colapso do sistema palacial da Idade do Bronze devido a sua própria e crescente debilidade intrínseca, às suas próprias contradições internas; 5) hipótese militar: inovações radicais no modo de fazer a guerra trazidas ao Egeu e ao Oriente Próximo (em suas regiões de origem podiam ser às vezes antigas) – ênfase na infantaria e já não nos carros de guerra, uso de armas (espada longa e javalina, por exemplo) e táticas típicas de uma guerra de guerrilha – deram a povos "bárbaros" uma vantagem impossível de enfrentar pela tecnologia militar dos grandes Estados da Idade do Bronze, os quais então foram vencidos, saqueados e, ou desapareceram, ou tiveram de adaptar-se a realidades doravante transformadas sem remédio.
            Esta última hipótese explicativa – a militar – é a mais recente, exposta por Robert Drews em 1993. Como seu livro, ao propor uma teoria nova num campo onde várias outras se digladiavam, tratou de sintetizar as teorias mais antigas, constitui também um sumário útil das outras posições existentes: por tal razão, nele me baseei para estabelecer o resumo acima, embora modificando seu esquema classificatório em alguns pontos (Drews, 1993).
             Concordo com tal autor em que certas teorias podem ser já consideradas como de todo defasadas. A introdução do ferro na tecnologia do Oriente Próximo, por exemplo, seguiu uma cronologia longa que precedeu 1200 a.C. e também foi além da época da "catástrofe": só no século X a.C. (e bem mais tarde no Egito) o ferro superou o bronze como metal mais importante.(8)  Por outro lado, as explicações que enfatizam causas naturais podem basear-se em fenômenos comprovados (parece bem estabelecido que houve a incidência de secas, fomes e epidemias no Oriente Próximo nos séculos XIII e XII a.C., por exemplo), mas sua cronologia nunca é exatamente a que os seus proponentes gostariam que fosse para aplicar-se em forma convincente à "catástrofe de 1200 a.C.", além de que sempre se pode perguntar: por que outros fenômenos naturais anteriormente incidentes, às vezes até por longos períodos (cheias do Nilo baixas demais do fim do terceiro e do início do segundo milênio a.C., por exemplo), não acabaram antes com o sistema típico da Idade do Bronze? Por que os sistemas palaciais que desapareceram de vez não se reergueram após uma diminuição de população, um terremoto, etc., se eles mesmos ou outros similares o fizeram outras vezes no passado?
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            Das teorias remanescentes, Drews é bastante convincente em mostrar que a hipótese migratória, em suas diferentes variantes, começou a impor-se no século passado a partir de uma prestigiosa interpretação por Gaston Maspero das fontes egípcias – as mais explícitas acerca de grupos supostamente migrantes – à luz das teorias de aceitação comum pelos arqueólogos, por muito tempo, a respeito da importância central do deslocamento de povos (Volkswanderung) na explicação de fenômenos históricos e arqueológicos, enfocada além do mais segundo uma concepção "nacional" absolutamente anacrônica. Alessandra Nibbi, uma autora de idéias extremas e pouco convincentes com muita freqüência, neste caso parece ter prenunciado com bastante razão a crítica de Drews. Este sumariza:
"Se os nomes shardana, shekelesh, tursha e peleset têm algo a ver com a Sardenha, a Sicília, a Etrúria e a Palestina (e é bem provável que tenham), tais nomes só podem significar – bem simplesmente – ‘pessoas oriundas da Sardenha, da Sicília, da Itália e da Palestina’. Os próprios nomes não são prova de migrações de algum lugar a outro. As únicas ‘migrações’ que contribuíram para a Catástrofe foram as infiltrações de líbios e palestinos no Delta egípcio." 
(Drews, 1993: 72) (9)
            Ou seja, ele crê que, quando os piratas e saqueadores vieram de longe, não ficaram; enquanto outros provinham de zonas próximas àquelas que atacaram.
            A própria explicação de Drews – a militar – não é incompatível com a do enfraquecimento do sistema palacial próximo-oriental e egeano típico da Idade do Bronze. No fundo, ele objeta é à expressão "colapso", por dar de certo modo a impressão de que aquele sistema caiu por si mesmo. Poder-se-ia dizer, por outro lado, que uma hipótese de tipo militar que não leve em conta as contradições internas presentes nas áreas afetadas (e que podem ser bastante diferentes de região a região) é uma tentativa de explicação monocausal pouco convincente. Drews faz um paralelo com os espanhóis no México e no Peru: os invasores europeus exploraram, sem dúvida, as contradições e fraquezas da confederaçõe tributária asteca e do império inca; mas houve conquista militar espanhola e derrota dos astecas e incas. Sua conclusão é que uma explicação da "catástrofe de 1200 a.C." deve não somente estabelecer "a fraqueza das vítimas mas sim, também as motivações, recursos e ações dos agressores" (Drews, 1993: 89).  De acordo. Mas o abismo de civilizações e tecnologias era incomparavelmente maior no caso dos processos americanos do século XVI d.C. por ele invocados. Aceitando sua correção no sentido de que a visão do lado dos atacantes é também necessária, e que a própria contribuição do autor neste sentido é importante, continuo achando – ainda mais numa discussão tendente às estruturas e à contextuação, como a minha – serem as explicações em termos das contradições internas do sistema palacial da Idade do Bronze as mais ricas. (10)
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            Que conseqüências decorreram do fim da situação típica da Idade do Bronze para as relações internacionais? Respondendo a esta questão, Liverani enfatiza os aspectos econômicos e técnicos. Do ponto de vista técnico, deve entender-se que as inovações por ele apontadas só começam a introduzir-se na fase que aqui consideramos. São elas: o ferro, mas num processo longo, como vimos; o alfabeto; a adoção do dromedário, permitindo doravante, na região, o "grande nomadismo" (além do "nomadismo circunscrito" já anteriormente existente) e caravanas comerciais que possam atravessar os desertos em lugar de contorná-los; a agricultura à base de terraços nas encostas e de escavar poços profundos onde a água houvesse sido um problema até então; um aperfeiçoamento da relação vela/quilha/leme nos barcos, abrindo mais do que antes a possibilidades de rotas longas de alto mar ao navegar.
           Quanto à organização das trocas no Oriente Próximo (e também a partir do Oriente Próximo, em rotas de longo curso, terrestres ou marítimas), elas deixaram de ter os sistemas palaciais – mesmo nos casos em que estes não desaparecessem – como centro exclusivo ou principal. As tribos nômades passaram a ocupar-se das rotas de caravanas (quando, no passado, sua função a respeito fora muito mais a de saqueadores delas), rotas às vezes muito longas. De um modo mais geral, desapareceu o bloqueio operado pelos sistemas palaciais que, no passado, fragmentara as rotas de trocas: disto, e também de novas possibilidades técnicas, decorreu a possibilidade, por exemplo, da navegação fenícia de longo curso e em alto mar. Desta forma, por exemplo, surgiram alternativas, na Idade do Ferro, às rotas do ouro e do incenso antes monopolizadas pelo Egito; e, mais em geral, pode-se estabelecer um contraste das rotas "confinadas" e de pura cabotagem da navegação baseada nos portos da Síria-Palestina na Idade do Bronze com aquelas, "abertas" em direção ao oeste e ao sul, da navegação dos fenícios no Mediterrâneo e no mar Vermelho na Idade do Ferro. Lembremo-nos outra vez de que a fase que estamos estudando só viu o início de tais transformações. Ao mesmo tempo, as tendências antes já existentes mas ainda tímidas no sentido de um comércio e uma busca de lucro assumidos enquanto tais se confirmam e se estendem muito: o próprio desaparecimento, enfraquecimento ou reestruturação dos sistemas palaciais deles libertou o comerciante, cuja autonomia de ação é patente na Idade do Ferro. Isto se nota tanto naquilo que se faz quanto no vocabulário que se refere às transações.( Liverani, 1987: 71-73)

2.2. Egito e Síria-Palestina
            Na Idade do Ferro, nota-se um contraste entre as regiões que superaram ou não sofreram a "catástrofe de 1200 a.C.", as quais emergiram da transição tendo conservado muito de suas estruturas anteriores (Egito, Mesopotâmia), e as que sofreram todo o impacto daquela "catástrofe" em forma duradoura: entre estas se inclui a Síria-Palestina. As áreas do segundo tipo foram muito mais rápidas em seus progressos técnicos e transformações estruturais na transição do Bronze para o Ferro. Mas talvez o mais importante de tudo, no caso da Síria-Palestina, tenha sido que, por alguns séculos, a região esteve livre de qualquer ameaça de um domínio tributário estrangeiro. Isto, em conjunto com as rápidas transformações técnicas e estruturais internas, abriu a possibilidade do surgimento, ali, de Estados que já não fossem puramente "territoriais" em sua conformação mas, sim, dessem lugar à construção de sólidas etnias, muitas vezes de base tribal pelo menos de início (Liverani, 1988: 629-660; Cardoso, 1994, capítulo 1 e 1997: 18-22).
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            Já foi mencionado que o mapa da Palestina foi dos que mais mudaram na conjuntura posterior a 1200 a.C.: na costa e regiões imediatamente adjacentes, de sul a norte, agora estavam as cidades-Estados dos filisteus, as dos teucros (tjeker) e as da Fenícia; para o interior, a confederação tribal dos israelitas (que só depois do período aqui considerado chegariam à etapa monárquica e estatal) e a infiltração crescente dos arameus.(11)
            O Egito é exemplo da outra tendência: atrasado tecnológica e estruturalmente quanto às possibilidades abertas pela transição do Bronze ao Ferro, tivera também seus recursos exauridos pelas lutas freqüentes contra invasores externos, mantendo, no entanto, seus vastos domínios palaciais e templários. Em função da dificuldade de governar em bloco, numa fase de recursos declinantes, um país de dimensões muito grandes para os meios de transporte e comunicação disponíveis, em função também do processo de valorização do Delta – região no passado subpovoada e que na época raméssida alcançou o Alto Egito no tocante ao número de habitantes, mas não ainda à densidade demográfica e econômica –, ocorreu uma diferenciação interna entre o sul, centrado na Tebaida e tendente a transformar-se em teocracia, no sentido sacerdotal da palavra, e o norte. Isto significou uma divisão de atribuições que está por trás das enormes "doações" feitas aos templos, sobretudo sob a XXa dinastia: se nos lembrarmos de que os templos ainda eram, no início de tal dinastia (época em especial de Ramsés III), parte integrante do aparelho de Estado, o que houve foi uma partilha de áreas de ação. O palácio faraônico doravante queria ocupar-se de preferência com o fomento (abertura de terras à agricultura e à pecuária, às vezes assentando em grande quantidade, no Delta, parcelas numericamente importantes dos povos vencidos nas guerras), a política exterior, cujos problemas maiores estiveram durante muito tempo ao norte, as trocas com a Ásia, entregando aos templos (em especial o de Amon em Karnak) a gestão agrária das regiões mais antigamente povoadas e exploradas economicamente. Com o declínio do poder faraônico ligado a sucessivos reinados curtos, posteriormente a Ramsés III, e a razões ainda desconhecidas no caso do longo reinado de Ramsés XI (o qual desapareceu em vida da documentação a partir do ano 19 do seu reinado de cerca de trinta anos), confirmam-se certas tendências já visíveis antes: uma afirmação quase faraônica e em seguida faraônica (mas de tipo peculiar e restrita a Tebas) do poder político do sumo sacerdote de Amon de Karnak, na prática cada vez mais um governante independente dotado, desde a parte final da última dinastia do Reino Novo, também de poder e prestígio militares; e a bipartição, primeiro virtual e depois abertamente assumida (desde o ano 19 de Ramsés XI) do Egito em dois Estados vinculados entre si e mantendo relações cordiais, mas separados quanto ao governo, um de caráter teocrático centrado em Tebas, o outro muito voltado para o Mediterrâneo, com capital em Tânis.(Cardoso, 1987)
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            Sendo a situação da Síria-Palestina e a do Egito como eram agora, tendo o império egípcio desaparecido tanto na Núbia – onde, já antes da derrocada imperial egípcia, exauriam-se as jazidas de ouro exploradas pelo Egito, como também ocorria com as do deserto oriental, diminuindo os recursos com que antes os faraós haviam interferido nas relações internacionais (o "Egito rico em ouro" deixara de existir) – quanto na Síria-Palestina já no século XII a.C., as relações dos egípcios com os diferentes povos da Ásia imediatamente ao norte do Sinai não poderiam manter a forma que haviam tido no auge da fase tardia do Bronze. Esta, no entanto, é outra história.

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NOTAS
O gráfico aparece na p. 61 (Zaccagnini, 1987), mas modifiquei significativamente sua forma.

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